Do conhecimento à prática: Oficina de Bambu promovida pela ABDSul revelou diferentes possibilidades de uso da planta


A atividade integrou a Jornada das Oficinas do Fazer da ABDSul e uniu conhecimento, manejo e experiência prática em Águas Mornas e Rancho Queimado
No dia 26 de setembro de 2026, a Associação de Agricultura Biodinâmica do Sul – ABDSul realizou uma nova atividade da Jornada das Oficinas do Fazer, dedicada desta vez ao bambu. A programação foi organizada em dois momentos e em dois territórios: pela manhã, no Sítio ABDSul, em Águas Mornas, e, à tarde, no Sítio Vagalume, em Rancho Queimado.
A oficina foi facilitada por Marcos da Silva Marques, conhecido como Marcos Vagalume, engenheiro civil, produtor rural e estudioso das possibilidades de cultivo, manejo e utilização do bambu. A atividade contou ainda com o apoio da equipe da ABDSul, responsável pela organização e acompanhamento da programação.
A proposta foi aproximar os participantes a partir da experiência direta, combinando informações, observação e prática. Pela manhã, o grupo conheceu aspectos relacionados ao bambu e participou do manejo de uma touceira no Sítio ABDSul. À tarde, a programação prosseguiu com a visita ao Sítio Vagalume, permitindo conhecer uma experiência construída ao longo de mais de duas décadas.
Uma planta de crescimento rápido e múltiplas possibilidades
Na apresentação inicial, o bambu foi caracterizado como uma planta de rápido crescimento, perene e com diferentes possibilidades de utilização. Entre os aspectos destacados estavam a possibilidade de colheitas sem replantio por muitos anos, ciclos culturais que variam de acordo com a finalidade e seu potencial de utilização na agricultura, no ambiente, na construção, na alimentação e em diferentes atividades produtivas.
Um dos conteúdos apresentados por Marcos foi um quadro comparativo entre bambu, pinus e eucalipto, considerando ciclo cultural, produtividade e possibilidades de uso:
Item | Pinus | Eucalipto | Bambu |
Ciclo cultural – anos | 15–25 | 7–10 | 3–8 |
Produtividade – t/ha.ano | 25–35 | 30–50 | 40–60 |
Celulose / Papel | X | X | X |
Energia | X | X | X |
Móveis | X | X | X |
Construção | X | X | X |
Alimentação | – | – | X |
Fonte: apresentação “Bambu – breve introdução”, utilizada na Oficina de Bambu da ABDSul, setembro de 2026.
A comparação apresentada ajuda a visualizar a diversidade de aplicações do bambu e a importância de compreender seu ciclo de desenvolvimento de acordo com a finalidade pretendida. A alimentação, por exemplo, aparece como uma possibilidade específica do bambu no quadro apresentado, por meio dos brotos.
Bambu e suas relações com o ambiente
Outro bloco da apresentação foi dedicado ao “Bambu Ambiental”, reunindo possibilidades de utilização da planta na proteção de nascentes e matas ciliares, controle da erosão, contenção de encostas e recuperação de áreas degradadas.
Também foram apresentados aspectos relacionados à recuperação de solos, abrigo para a fauna, produção de alimento, sequestro de carbono e utilização em sistemas de fitorremediação e tratamento de efluentes.
No campo da agricultura, as possibilidades mostradas foram igualmente amplas: quebra-vento para plantações, suporte para flores, hortaliças e frutas, sombreamento de viveiros, tubos para irrigação e drenagem, além da utilização na construção de galpões, pontes, cercas e outras estruturas rurais.
O conjunto de aplicações apresentado reforça uma perspectiva importante da oficina: o bambu pode integrar diferentes dimensões de uma propriedade, atuando como recurso ambiental, elemento de infraestrutura, matéria-prima e alimento.
Plantar bambu é também planejar
Outro conteúdo apresentado foi sintetizado no slide “Plantar Bambu!”, que destacou o bambu como matéria-prima e sua possibilidade de produção em diferentes ciclos.
A apresentação indicou, como referências, produção de mudas a partir de três anos, brotos a partir de quatro anos e varas a partir de oito anos, mostrando que diferentes finalidades estão relacionadas a diferentes momentos de desenvolvimento da planta.
Essas informações ajudam a compreender que plantar bambu exige mais do que escolher um local e introduzir a planta. É necessário conhecer a espécie, definir a finalidade, observar as condições do terreno e estabelecer um manejo adequado.
Da experiência à vivência no Sítio Vagalume
Esse conhecimento ganhou uma dimensão concreta durante a visita ao Sítio Vagalume, em Rancho Queimado.

Foi nesse território que Marcos Vagalume iniciou, em 2003, uma experiência de reflorestamento experimental com diferentes espécies de bambu. A apresentação utilizada na oficina registra esse plantio realizado em Rancho Queimado naquele ano.
A trajetória construída desde então permitiu acompanhar diferentes espécies, formas de crescimento e possibilidades de utilização, constituindo uma experiência prática que dialoga diretamente com a proposta da oficina.
A visita também possibilitou perceber que diferentes espécies atendem a diferentes finalidades. Há bambus entouceirantes e alastrantes e características que precisam ser consideradas conforme o objetivo do plantio.
Essa compreensão é fundamental para quem pretende introduzir o bambu em uma propriedade: antes de plantar, é preciso saber qual espécie utilizar, onde plantar, para qual finalidade e como realizar o manejo.
Do alimento à construção

Ao longo da apresentação, o bambu apareceu associado a uma grande diversidade de produtos e aplicações. Foram apresentados exemplos de brotos para alimentação, confecção de velas, produção de mudas, estruturas rurais, móveis, artesanato, laminados e materiais compostos, além de diferentes aplicações na construção.
Também foram mostradas possibilidades de aproveitamento de resíduos, incluindo pellets e carvão, e exemplos de utilização do bambu em diferentes soluções construtivas.
A dimensão construtiva ganhou destaque com imagens de pontes, estruturas, coberturas, andaimes e edificações produzidas com bambu em diferentes países. A apresentação também trouxe referências ao bambucreto e a materiais laminados e compostos.
Uma experiência que continua
A oficina também recuperou experiências relacionadas ao desenvolvimento do bambu no Brasil, incluindo referência à pesquisa da UFSC em parceria com a BambuSC, além de experiências de reflorestamento e produção comercial em Santa Catarina.
Mais do que apresentar informações sobre uma planta, a atividade criou uma oportunidade para observar, manejar, perguntar, trocar experiências e conhecer uma propriedade onde o bambu vem sendo acompanhado e utilizado há muitos anos.
É justamente essa aproximação entre conhecimento e prática que orienta a Jornada das Oficinas do Fazer da ABDSul: valorizar experiências existentes, levar o aprendizado para os territórios e criar espaços de formação a partir da experiência concreta.
Comunidade apoia Comunidade
A realização da oficina também expressou o princípio Comunidade apoia Comunidade – CaC, valorizado pela ABDSul na construção de suas iniciativas. A parceria entre pessoas, propriedades e organizações como Escola Waldorf Anabá, Escola Waldorf Arandu, Escola Waldorf Aurora, BambuSC e Sítio Vagalume, possibilitou que conhecimentos acumulados ao longo dos anos fossem compartilhados diretamente no território.
A ABDSul agradece especialmente a Marcos Marques, pela condução e compartilhamento de sua experiência, à equipe que apoiou a realização da atividade e, de maneira especial, a todos os participantes que estiveram presentes, contribuindo com perguntas, experiências, observações e disposição para aprender.
A presença e a participação de cada pessoa ajudam a dar sentido à proposta das Oficinas do Fazer e fortalecem a construção coletiva de conhecimentos que podem ser aplicados nos diferentes territórios.
E a Jornada continua
A experiência com o bambu abre caminho para novos encontros. Para os meses de outubro e novembro/26, a ABDSul está organizando novas Oficinas do Fazer, que serão divulgadas oportunidamente.
Assim, uma oficina dá continuidade à outra: depois de conhecer o potencial de uma planta e suas relações com a propriedade, o próximo passo é ampliar o olhar para o território como um todo, compreendendo como seus diferentes elementos podem ser organizados e integrados.
Plante bambu. Cultive conhecimento. Planeje o território. Gere possibilidades.
Comunidade apoia Comunidade - CaC
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